quinta-feira, 13 de novembro de 2008

EU SOU A NORMA: VIVER E TER UMA VIDA MULATA EM UMA SOCIEDADE AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA PÓS-COLONIAL

Origens e disseminação na África lusófona

Não se sabe de onde ou aonde, quem o criou e ou o porquê que o mesmo surgiu, com cerca de Três a Quatro anos ouviu-se e surgiu na sociedade angolana, disseminando-se para outros países africanos de língua portuguesa, e Portugal pela diáspora destes e a influência cultural angolana em especial a música, comunidades virtuais, vídeos no you-tube, no intercâmbio na diáspora entre angolanos e demais lusófonos e por brasileiros imigrantes em Angola. Tanto os brancos, como os mulatos e pretos fazem o uso deste para ostentar e mostrar sua condição econômico-financeira ou apenas para demonstrar um estado efêmero de ostentação de um lazer e ou situação vedada aos pretos ou simplesmente por acharem a mesma bonita, e ou mera criatividade lingüística dos angolanos, já que ser mulato é ser a norma também estética e por não se ter a noção semântica do termo em si. Entende-se aqui a vida mulata como a norma, o ideal de ego para os não brancos e mulatos digo pretos. Assim a vida mulata é em si histórico-social, educacional, econômica, social, política, estética e ideológica, e em si um fato social. Histórico-social porque o mulato herdeiro transgeracional de uma estrutura colonial onde sempre foi tratado diferente do não mulato o autóctone, com benefícios por ser filho (a) de um colono branco/euro-europeu constituindo-se assim como uma sub-norma e norma após as independências africanas em especial nos países de língua oficial portuguesa. Educacional, pois teve condições e aceitação diferenciada no sistema educacional público oficial. Econômico porque herdou de seus pais e ou avós brancos a condição financeira e a garantia de vida e condição social melhor no pós-independência. Social porque dentro da sua identidade “quase-branca/sub-norma”. Política porque se organizaram e sonhou herdar a estrutura administrativa e política de seus pais e ou avos brancos, a colonial. Estética porque tornaram-se a norma o ideal de ego para os pretos na falta do branco. Ideológico, pois herdaram uma estrutura psíquica psicopatológica transgeracional e continuaram a se auto-distinguir e a tratar de forma diferenciada o não branco e não mulato, subentende-se aqui pretos, herdando e obtendo a nacionalidade dos pais e ou avos, operando dessa forma no novo espaço geopolítico de forma bi-volt.

A vida mulata

Termo usado para demarcar o território subjetivo e concreto dentro de sociedades africanas de língua portuguesa, o mulato aqui é analisado como categoria sócio-histórica racial porque sempre houve sua diferenciação dos demais não brancos no período pré e pós-colonial. Então o que é ter uma vida mulata ou viver uma vida mulata: a vida mulata é o lugar de vantagem estrutural nas sociedades constituídas por uma estrutura de dominação racial, é o “ponto de vista”, um lugar a partir do qual o mulato se vê e vê o preto e a ordem territorial nacional, é o locus de elaboração de sua identidade ancestral euro-européia, marcadas previamente com a colonização e não denominadas como nacionais ou normativas, já que se vive em um Estado Nação de maioria populacional nativa africana. É o local onde o mulato faz a vez do branco colonizador na falta do mesmo, a partir desse locus comumente redenominado ou deslocado dentro das denominações étnicas ou de classe, fortalecendo-se como marcador de fronteira entre ser branco e ser preto. Assim a vida mulata é o lugar de privilégio. Embora não seja contemplada por privilégios absolutos, é atravessada por uma gama de vários eixos de privilégios ou subordinação relativos. Estes não se apagam nem tornam irrelevante o privilégio “racial”, mas o modulam ou modificam. A vida mulata é produto histórico e uma categorial relacional, pois é em relação ao preto que ela se impõe. Não possui significado intrínseco, mas detém e age a partir de seus significados socialmente construídos e cristalizados por mecanismos cristalizadores ou naturalizantes. Os significados da vida mulata têm camadas complexas e variam localmente, assim seu significado pode parecer simultaneamente maleável e inflexível. O caráter relacional e socialmente construído da vida mulata não significa, convêm enfatizar, que esse e outros lugares sejam irreais em seus efeitos materiais e discursivos sobre quem e como se vive como mulato. A estas heranças, vantagens e privilégios nós denominamos por MULATIDADE. A mulatidade é também entendida por nós como uma psico-sociopatologia. Segundo Adler o sentimento de inferioridade convive com o desejo de superioridade. A patologia-protesto do mulato consiste no “branco”, assim como não é branco segundo critérios europeus, afirma-se por duas vias: lembrando ansiosamente sua ancestralidade branco-européia e estudando o preto como um objeto, negando a ancestralidade preto-africana em sua constituição bio-subjetiva, ao lado de quem sua brancura é ressaltada.

O caráter da dominação, discriminatório e racista da “Vida Mulata

A independência e o pós-colônia, apesar da transferência política de brancos para pretos e mulatos, não representou a alteração da estrutura das relações sociais “a norma” na sociedade angolana. Da herança devastadora da colonização a independência nada conseguiu obter em relação à mudança da norma. A vida mulata é fruto claro da estrutura racialista e racista colonial herdada psiquicamente que se apresenta sob a forma do neo-racismo e uma neo-segregação em Angola, já que uma vida mulata é sinônimo de ter qualidade de vida. O que quer dizer que o mulato-branco, em regra geral, detém condição econômico-financeira e sócio-cultural melhor em relação ao preto. A condição desejável por todos brancos, mulatos e pretos, e que ser preto em Angola é não possuir e viver em uma vida não mulata, equivalente a maiores dificuldades sócio- econômicas. A estrutura sócio-econômica desigual entre branco-mulatos e pretos no período de dominação colonial, apesar da mudança no poder político pós-independência em especial nas décadas de 80 e 90 do século XX, manteve-se e se mantêm inalterada em termos hierárquicos ao longo dos anos de independência: no topo da pirâmide, pretos assimilados e brancos-mulatos, no meio os brancos-mulatos e na base os pretos, perpetuando-se, dentro dessa estrutura desigual colonial e por uma falsa identidade multirracial angolana, a angolanidade. Assim, em Angola ser mulato, em si já representa uma vantagem de cerca de 50%, dentro de uma estrutura político-ideológica e administrativa a seu favor. Por outro lado ser preto e etnicamente consciente é ter dificuldades para viver e ocupar cargos de maior relevância, sem necessariamente pertencer à maquina político-econômica.

O que é ser mulato e ter uma vida mulata em Angola

É apresentar-se como a própria norma e representar-se como o herdeiro do próprio branco-colono, o fruto “esquebra do colono” *, representa a usurpação dos direitos do preto, é ter prioridade na propaganda e meios de comunicação. É poder ter tido instrução acadêmica muito antes da criação de instituições de ensino público superior; ir à metrópole ancestral, Portugal, passar pela entrada de nacional e receber educação aos moldes dos avôs e pais. É poder entrar e sair da nacionalidade a angolanidade quando bem entender porque é ser possuidor de dupla nacionalidade em sua maioria portuguesa e angolana. Ser mulato é ter uma vida mulata é ser a norma, o signo, o símbolo e significado de status é ser rico economicamente e subjetivamente. E não ter vida mulata é ser preto e pobre economicamente e subjetivamente. É poder ter tido chance de não ser “rusgado”** ou “não-rusgado” pois foi resgatado pela nacionalidade portuguesa ou por um parente. Assim não ir à kwemba,*** “à fronte-guerra” e poder estudar e tornar-se um oficial na carreira militar. É passar pelo quatro de fevereiro sem ser importunado sobre sua situação militar e embarcar para o estrangeiro sem dificuldade e ainda encontrar uma tripulação quase que toda ela branca-mulata na TAAG. É sair e entrar, de forma segura e garantida da angolanidade. Durante os 30 anos de guerra, não ter sido mutilado em combate, mas ter tido e sido um oficial superior (coronel, brigadeiro, general) do exército, marinha, aeronáutica, inteligência.

E é saber que ao preto essa saída e entrada já foram previamente condenadas a uma quase impossibilidade. É poder sair às ruas e não se deparar com mendigos, pedintes, mutilados e dilacerados de guerra brancos-mulatos. Ser mulato é não viver no musseque**** é ser o asfalto. Ser mulato é poder viver de forma segregada e não segregada “em ambientes mulatos”, poder fazer e escolher o papel social e não fazer parte do lado dos excluídos. É poder se gabar que se vive na melhor sociedade africana onde a ancestralidade étnico-racial não importa afinal somos todos Manuéis, Pintos, Santos, Gutiérrez... É saber que os preto (as) sonham em ir para cama ou aparecer em público com um (a) mulata (o) símbolo de poder, conquista, e desgraça; já que o velho ditado afirma “se quiseres desgraça em sua vida compra uma Kombi, arranja uma sogra feiticeira e uma mulher mulata”. É ter a consciência de que se é à norma e de que vai continuar a sê-la por um tempo não demarcado. Logo isso é a VIDA MULATA na terra da “democracia e igualdade racial” ?!?

* Termo usado em Angola para se referir ao mulato como o resultado e fruto de uma relação entre não branco e branco e o que ficou e ou restou do colonizador e o representa contemporaneamente.
** Ato de “seqüestrar” para o serviço militar compulsório em épocas da guerra civil angolana.
*** Equivalente a vida militar no, fronte de combate.
**** Bairros periféricos de Luanda “Angola” sem urbanização.



Por: Nkuwu-a-Ntynu Mbuta Zawua



Referencia bibliográfica

ANONIMA, Carta dos mulatos a nação angolana. Nós mestiços em estamos em todos os sectores da sociedade.
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Ed. 6ª. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2006.
CARONE, Iray e BENTO, Maria Aparecida Silva (orgs) Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Ed. 3ª. Petrópolis, Vozes, 2002.
CARVALHO FILHO, Silvio de Almeida. As relações étnicas em Angola: as minorias brancas e mestiças (1961-1992)
FANON, Frantz. Peles negras mascaras brancas. Salvador, EDUFBA, 2008.
INSTITUO AMMA psique e negritude. Os efeitos psicossociais do racismo. São Paulo, AMMA/Imprensa Oficial 2008.
LACAN, Jacques. Complexos familiares. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987.
MARRATZU, Priamo. Angola e Brasil: Realidade, Ficção e Democracia Racial
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte, Autêntica, 2004.
RESWEBER, Jean Paul. A filosofia dos valores. Coimbra, Almedina, 2002.
WARE, Vron (org). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de janeiro, CEAB/Garamond, 2004.

3 comentários:

Santos e Silva disse...

À Equipe
Recomendo muito seriamnte a leitura de "A Prece dos Mal Amados" do escritor angolano Fragata de Morais, editada há dois anos pela Campo das Letras, em Portugal e pela Chá de Caxinde em Angola.

dissertation1 disse...

Ola - eu estou escrevendo sobre a chamada Vida Mulata em Angola numa parte pequena da minha tese de douctoramento e achei seu blog super-interessante e bem escrito! Acima da questao racial e do dinheiro acho que a vida mulata tambem representa uma idealizacao do "lusotropicalismo" (de mistos felizes baixo o sol tropical) e nesse aspecto e ligado nao so ao imagem da historia e vida do mulato em Angola mas tambem ao imagem do Brasil em Angola. Meu argumento e que em certa forma e uma ameaca ao conceito de angolanidade se como nos argumentos intellectuais angolanidade e visto como tudo isso que nao e mistura nem Portugal.

Tabu Afro Africanos disse...

Olá Dissertation 1, gostariamos de saber mais sobre sua pesquisa e tese este é o nosso contato.

tabuafroafricanos@gmail.com

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